01/06/2012
Os médicos e a nossa Dama de Ferro
Em mais um ato de perseguição ao funcionalismo público federal, a presidente Dilma Rousseff, através da MP 568/2012, de conteúdo
fascista e inconstitucional, reduz pela metade o já aviltante salário dos médicos ativos e inativos do Ministério da Saúde.
A iniquidade dessa ação persecutória não chega a surpreender, pois reflete o descompromisso do governo petista com esses profissionais,
que se esmeram em prestar uma assistência médica de qualidade mas em troca recebem desrespeito, humilhação e péssimas condições
de trabalho nos hospitais públicos. No entanto, desgraçadamente, devemos reconhecer que esse descaso, ainda que cruel, é coerente
com uma governante que desmente as promessas de campanha e opta por trilhar o caminho do neoliberalismo, isto é, do enfraquecimento
do Estado brasileiro.
Em matéria de maldade e para gáudio de Lula, Dilma superou o seu mestre. Com a edição da malfadada medida, milhares de
médicos foram jogados no limiar da indigência, principalmente os aposentados, na sua maioria, já padecendo de uma doença crônica
e dependendo dos seus magros proventos para custear os remédios e sustentar suas famílias.
Ao aproveitar o entulho da reforma do Estado de FHC e Lula, Dilma dá continuidade ao programa neoliberal, valendo-se do
discurso da modernização, para justificar as privatizações a qualquer preço, enquanto muda o eixo da economia do mercado interno
para o mercado externo. De outra maneira, abre-se o país para o capital estrangeiro, ao mesmo tempo que se prioriza a exportação
de produtos primários de baixo valor agregado. É a política econômica de submissão às instituições financeiras internacionais,
típica de um país atrasado, cujos dirigentes não pensam como estadistas mas como porta-vozes dos países hegemônicos. A abertura
da economia, nesses moldes, além de atentar contra a soberania nacional, exige uma forte redução dos gastos sociais, na forma
de arrocho salarial e de privatização dos serviços de saúde, educação e previdência social.
Os fundamentos da medida truculenta contra os médicos residem nesse modelo econômico que, infelizmente, só enxerga o
desenvolvimento a partir do enfoque material e tecnológico, não considerando as necessidades e os direitos das pessoas. Nesse
sentido, a luta pela reversão dessa violência institucionalizada, que aterroriza muitos servidores, passa, inicialmente, pelo
respeito e solidariedade a uma população sofrida e desassistida, o que afasta uma possível greve, e, depois, pelo enfrentamento
duro com o governo federal, através de convocações de assembleias e manifestações públicas, onde será desmascarado o caráter
entreguista e antipovo do governo Dilma. O movimento médico contra a injustiça deve unir todos os médicos, na hora do embate
com o governo, e deve também contar com o apoio importante e bem-vindo das entidades médicas, desde que estas (sindicatos
e conselhos éticos) não se aproveitem da mobilização destes profissionais para fins eleitorais e de interferência nas formas
de luta, decididas nas plenárias. Vale a preocupação, porquanto se sabe que algumas dessas instituições são aparelhadas por
partidos políticos, sabidamente adesistas e negocistas, que compõem a base aliada do governo. Objetivamente, o combate não
deve ser travado contra a medida provisória, um ente abstrato, uma formalidade legal mas, sim, contra a sua patrocinadora,
a presidente Dilma.
Diante dessa situação adversa e de difícil solução, os médicos ora prejudicados têm a obrigação moral de denunciar a perseguição
que lhes é movida por um governo que não governa, que não tem um projeto nacional e que se preocupa apenas em prestar contas
aos nossos credores internacionais. Estamos falando do governo Dilma Rousseff, que, até agora, só fez dar boa vida a banqueiros,
a latifundiários e a empresários corruptos que, diga-se de passagem, pautam as ações governamentais. A presidente que, por
razões ideológicas, optou pela aliança com a burguesia nacional, em detrimento do povo, apesar da demagogia dos programinhas
compensatórios e do PAC, no exercício do poder, revelou-se uma pessoa durona e adepta do pulso firme no trato das questões
gerenciais, comparável, segundo alguns analistas políticos, à ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a Dama de
Ferro. Entretanto, nas suas andanças internacionais, a nossa Dama de Ferro, acostumada, que é, a passar descomposturas em
ministros, surpreende a todos, ao se derreter em mesuras diante de Obama e dele receber ordens, explicitando a que veio.
Enquanto Dilma Rousseff veste a camisa de Eike Batista e fecha os canais de negociação com os trabalhadores, crescem,
em todo país, os movimentos grevistas, denotando a insatisfação da massa assalariada, vítima de uma política de austeridade
econômica, capaz de colocar o país na rota do impasse político-institucional, na medida em que as reivindicações por melhores
salários e pela garantia de direitos adquiridos, não atendidas, saia do âmbito da greve para o campo de um movimento político
de grandes proporções, cuja palavra de ordem, então, seria Fora, Dilma.
Artigo escrito por Thelman Madeira de Souza, médico.
Fonte: Jornal do Brasil